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Astrounauta também, eu acho, ou inventei, tanto faz. Hoje eu só queria ser o que eu já fui. Comecei me esquivando do que era. Fingindo não ser. Pensando que um dia ou outro eu poderia simplesmente acordar sendo o Noel Gallangher morto de overdose. Outra vez eu quis acordar sendo a minha namorada, para terminar comigo mesmo, sem motivo, mas com adeus.
Um dia eu acordei sendo eu mesmo. Mas eu não era mais a pessoa mais feliz do mundo.
Motivado pelo post sobre o Buk, resolvi deixar aqui um conto que escrevi em 2005, chamado a índia alemã. É ficção (tirando o casal brigando no começo e a parte da Juliette Binoche, hehe), meio auto-biográfico, meio wannabe e meio muzzarela. Mas é sincero. Foi o que me disseram. Segueno post abaixo.
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– Mas eu não quero esta vida…
- Nem eu. Mas a sua mulher é louca…
Impressionante como ninguém quer a vida que leva. E foi só ao observar este feio casal de uns quarenta ou cinquenta anos, ambos de aliança, no meio da rua, discutindo sobre seu aparente caso, que eu percebi como eu sempre quis a vida que levo, sem dinheiro, sem mulher e sem sonhos. Nunca quis ser outra pessoa, talvez alguns personagens, mas ninguém que eu tenha conhecido pessoalmente. Posso invejar as relações, as posses e a aparência alheia, mas nunca quis ser eles. Conscientemente, também nunca quis ser eu, mas o fato é que eu sou, e não tenho como fugir disso.
O ônibus chegou logo, e entrei, passei a catraca e logo sentei, ainda pensando nisso. De alguma forma, eu agora aceito o que sou hoje. E mesmo que eu não saiba direito o que é ser alguém, eu vou levando. Por algum motivo, me deu uma vontade incrível de chorar.
Foi quando em uma parada na frente de um cemitério, entrou uma moreninha sorrindo. Por reflexo, sorri também. Dava para ver em seu sorriso que ela também é uma fodida de grana, mas ainda assim sorria. Certeza que ela deve ter sonhos, ou pelo menos um macho em casa.
De qualquer forma, meu pensamento foi interrompido por um vendedor de flanelas. Foi a primeira vez que um desses vendedores que poderiam estar roubando, mas estão trabalhando, me ofertaram algo que não provocasse cáries. Procurei uma moeda no fundo do bolso para adquirir tal pechincha, e quando finalmente arranquei ela em um só golpe, todas as outras moedas escorreram para o chão. Constrangedor? Um pouco. Comecei a juntá-las, quando ela passa pela catraca e se senta no banco imediatamente atrás ao meu, mas do outro lado. Pele morena, não de sol, aproximadamente um metro e setenta e cinco
centímetros, cabelos loiros e lisos. Se eu não estivesse bem acordado, juraria que era uma índia alemã. Mas eu estou no Brasil, e tal utopia genética é totalmente plausível.
- Estas flanelas são de primeira qualidade, muito úteis para limpar os óculos dos senhores…
Volto a minha mente, e tudo bem, não é a primeira mulher desconhecida que eu olho e penso que daria filhos a ela, e no momento seguinte, já imagino sua bunda empinada no tanque. Não é a primeira vez que não sei o que fazer, o que pensar, que perco a noção da hora, que tudo o que consigo pensar em dizer é queria ter algo a dizer. Certeza que não foi a última vez que esquematizei todo o plano de como puxar papo, mas foi a primeira vez que quando olhei para trás, a mulher ainda estava lá. E ela olhou para mim.
- Vai querer a flanela, campeão?
Campeão? Eu só recebo todo o descaso do primeiro lugar no fracasso, mas mesmo assim, pego a flanela.
- Deus te abençoe.
Já me abençoou. Ela olhou para mim. Mas e agora? Tenho que disfarçar. Abro um livro. Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes. Ela pode se impressionar. Ou pode me achar um chato. Ela também está lendo. A insustentável leveza do ser, Milan Kundera.
Ótimo. Lembro do filme. Lembro nada. Só lembro de ter me masturbado muito na adolescência vendo a Juliette Binoche semi-nua. Malditos hormônios. Maldita situação. Estou transpirando. Óbvio. Após um dia de trabalho em São Paulo, onde a amplitude térmica é tão imprevisível quanto o trânsito, que no momento, está parado.
- Deve ser alguma manifestação – disse o cobrador.
Perfeito. Ainda tenho tempo de trocar algumas palavras com ela. Mas como? É sempre a mesma dúvida. Por que diabos as grandes cidades erguem fortalezas impenetráveis em torno de cada cidadão? E por que eu não aceito que quero a conhecer e ligo o foda-se para se hipótese dela me achar um xavequeiro barato? Queria um real por cada porquê…
Eu continuo tentando chamar a atenção sem ser notado. Coloco os fones no ouvido, volume no máximo. Talvez ela escute, e se identifique com a música…”se um dia nóis se gostasse…”. Lentamente ultrapassamos a manifestação. Ela não lê mais, olha pela janela. Seus olhos são cor de café, como os meus. Ela veste uma blusinha branca simples, jeans e uma sandália sem salto. Eu visto um terno de quinhentos reais surrado pelo tempo, e percebo que sentei em um chiclete, que é só a cereja no topo do sorvete, o que coroa minha imaturidade. Maldito transporte público. Eu sou usuário pois ainda não consegui comprar um carro. Nota-se pela minha vestimenta. Ela deve usar por questões ambientais.
Estes pensamentos estão insuportáveis. Não dá para viver assim para sempre. Algo precisa ser feito. Pelo menos um olá. Eu desço em poucos minutos, preciso de algo, mesmo que não tenhamos nada em comum, não posso deixar esta chance passar. Não mais uma…
Olho para trás. Ela se levantou e anda em minha direção. Apenas observo. Ela se dirige ao cobrador e pergunta:
- O próximo é o paraíso?
- Sim – responde o cobrador.
Ela anda em direção a porta dos fundos. A voz dela não é como eu imaginava. Ninguém é perfeito. Nem ela.
Me levanto, já que também desço no próximo. Ela é quase da minha altura, e a blusa cobre a bunda. Terei de imaginar como deve ser. Ando em direção a ela, ela levanta o braço, dá o sinal e me dirige um simpático sorriso. Percebo que ela deixa cair um pequeno pedaço de papel. É a minha chance: pegar e entregar para ela, ouvir um obrigado, responder um de nada, e puxar assunto. Sempre dá certo nos filmes.
Eu pego o papel, e leio: “nunca bata em portas que você jamais irá abrir”. O ônibus para, ela desce, eu desço. Ela sobe a rua. Eu, desço.
…e ao mesmo tempo, lembrei porque tinha dado um tempo. O filho da mãe escreve tão marginavelmente bem que eu me sinto pior que o Paulo Coelho, esse sim um safado mesmo. Mas o ponto é, eu li tudo do Fante, e não tudo do Bukowski, e mesmo o primeiro tendo influenciado o segundo, eu gosto mais das histórias do Fante, e não entendo como um vagabundo cachaceiro como o Bukowski ficou tanto tempo na rua e escreve tão maravilhosamente bem sobre a marginalidade social. Na verdade, eu invejo. Esse post é só pra fazer uma citação genial que talvez só faça sentido pra mim. Sabem aqueles garotos que foram criados como meninas? Eu não sou um desses, mas meus pais me criaram como humano… e como tal, aprecio muito as estrelinhas. Valeu Salinger!
“Eu continuava, no entanto, tendo problemas com os outros garotos da vizinhança. Meu pai não ajudava. Por exemplo, ele me comprava uma fantasia de índio com arco e flecha enquanto todos os outros garotos ganhavam fantasias de cowbói.” – Henry Chinaski
Globalização, montes de informações jogadas em sua mente e você nem sequer entende a dor, a perda de contato.
Um teclado e um mouse irão facilmente substituir as funções de suas mãos antes que você perceba que a solidão que sente está apenas em sua cabeça, que agora não processa mais números, apenas bites.
O scanner que te orienta dia-a-dia não opera sem a energia, que você não ingeriu por que estava trabalhando no almoço.
A falta de RAM irá te prejudicar e se agravar caso vocÊ não faça uma varredura em seu HD a procura de vírus, q podem ser tratados em clinicas especializadas, mas os diagnósticos estão aquem da compreensão dos programadores.
O desejo que um dia teve foi agrupado coma perseverança, e ambos foram postos em quarentena, pois o sistema os julga perigosos.
A individualidade que possui difere do seu companheiro apenas no ultimo digito, onde ambos sabem quando serão tecnologia obsoleta.
A garantia que um dia veio de fabrica agora reside na conta bancária de seus designers, que por sua vez nem sempre sabem qual foi o conceito que te criou.
A paixão que sentistes que estava arquivada em uma pasta agora foi para a lixeira, como a sua vida, que não depende de você para ser deletada ou mantida, e neste caso não há Backup.
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e o sushi que não comemos. A música que não cantamos e a viagem que não fizemos. A noite que não dormimos e as drogas que não usamos. Por tudo o que não foi, eu fiz essa canção.
Eu gostava muito do caos até eu descobrir que a reação dele é a ordem. Desta eu gosto menos, mas disfarço. Quando eu não estou respirando, eu também não penso. Enxugo. Muitas vezes eu me vejo em um espelho daqueles de parque de diversão. Busco soluções nas músicas, que só trazem mais questões. A vida é um circo e advinha quem é o palhaço? Ai vou para os filmes, e lembro que o doce não é tão doce sem o amargo. Este é o nosso documento. Nós somos tudo o que fizemos. Continuo adorando as metáforas. De cegueira, de ódioadolescente*, de natal. Sempre me levando a sério demais, nunca batendo em portas que jamais irei abrir. Mas hoje é meu dia, me sinto no topo. Dei chocolate e atenção. Deixe-me ser o único a brilhar contigo, e juntos iremos longe.
*é necessário frisar o milagre duplo, sem citar o santo.
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Vamos falar sobre a revolução, ele dizia, enquanto ela queria dançar. Ele gritava internamente, queria chorar, rir, beber, e muito, mas o corpo não permitia. Ai veio o exagero, a ansia por uma liberdade já conquistada mas não usufruida, que dentro da mente de qualquer um parece normal, mas ele para para pensar. Ela pensa que o mundo é bonito, colorido, mas ele não tem seus olhos. Mesmo assim, ela sacudiu ele, que caiu, rodou, chorou, enquanto ela se desesperou. Ele morreu, como se nunca tivesse vivido. Ela dançou, como se nunca tivesse dançado.
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o pior dia no trabalho pra depois ter o melhor happy hour? só comigo, pode falar.