Engraçado. Não é a primeira, nem a última vez que isso vai acontecer. Mas desta vez me dei conta. Tudo depende dos pequenos detalhes, das pequenas coisas que esquecemos e das grandes que só lembramos quando encontramos. Um mar de clichês que aqui se apresentam em caracteres.
É, vai ser diferente, eu penso. O tempo passa, as coisas mudam, mas quando me pego em m„os com objetos que ganhei a mais de vinte anos, percebo que velhos costumes sã válidos. Escrever é um deles. É como retomar algo que nunca se perde, sem comparar com bicicletas ou outros lugares comuns que julgamos nunca esquecer, como agradecer e perdoar.
De todas as mudanças, esta é a primeira sem rumo. E foi planejada para ser assim, caso contrário, seria como as outras. Se o destino não agradou, mude a rota. Nisso eu lembro de um filme que nunca assisti, e não vou roubar, vou homenagear no título, afinal, não entender orgulho é coisa do século XX. Hoje temos que ser tolerantes, da boca pra fora, e desconfiados cerebelo adentro. Isso enquanto não controlam nossos pulsos eletromagnéticos que interferem no celular, que não provoca e nunca provocará cancêr, uma vez que somos nós, humanos, nossa própria doença, e cura.
Bagunça, sujeira, nem percebo a música no repeat. Me recordo de ter escrito uma vez a luz de velas. Era para ser infantil. Agora não sei mais, não me preocupo mais com resultados e sim com intenções, e por mais que o inferno esteja repleto das boas, não existe negativismo sem justificativa, nem levanto o vidro pois nada de valor está fora da caixa, craniana. Espero apenas as palavras se juntarem e no fundo se entenderem, uma espécie de “kerning semiótico” que nem eu entendo, nem preciso, pois sei o que significou todo o montante de coisas que acumulei durante esses anos, e me lembro até de coisas e pessoas desfeitas. Máscaras que ainda guardo em algum lugar, talvez junto dos poucos brinquedos.
Ai me pego em coisas que sei que deveria ter jogado fora a muito tempo. Alguns livros que não li, esses não guardarei, é como sempre. Esperamos o momento. Por isso admiro quem começaa a refeição pela sobremesa, ao mesmo tempo que respeito quem come o ovo cru. Também não gosto das coisas indispensáveis de que não preciso mas guardo, digamos que por motivos burocráticos. Essa coisa de ser inocente até que se prove o contrário só existe nos filmes, já me ensinou a vida.
E por falar em filmes, guardei vários deles. Sob livros agora estão. Não lembrava mais quantos livros fui capaz de acumular, mesmo tendo usufruido muito de uma certa biblioteca cuja atendente era atraente o suficiente para eu tentar impressioná-la lendo Rainer Maria Wilke ou Saramago. Sara o que mesmo, ela disse certa vez. Acho que foi ai que passei a investir, em livros não e não na moça, e embora todos tenham sido absorvidos algum dia, posso querer repetir a dose, ou emprestar, ou presentear. Foi mais fácil com os cds, devidamente convertidos em mp3, o que facilitou muito minha conversão para uma vida portátil. Computador, dvd, mp3 player, era tudo transportável no pequeno automóvel. Vendi tudo quando precisava de dinheiro. Não há mais desculpas para não recomprar, além de esperar a mudança. Mas os livros, ah os volumosos. Eu posso recitar um trecho de uma genealogia que moral nenhuma explica, mas ainda guardo o tomo, que diz primeira edição. Está na caixa que parece valer a entrada de uma moradia em algum sebo, mas que na verdade mal pagaria o meu valor, R$5,40. Isso eu já expliquei anteriormente.
Faltam caixas. Nesta hora percebo que qualquer vida nunca vai ser portátil, nem estática, e muito menos, vazia. Sempre faltarão caixas, por mais que tudo possa um dia ser digitalizado, até nós mesmos. Toda a estética da coisa se distorce uma vez que na história exista uma mulher, ou dinheiro. … sempre culpa deles, separados ou não, embora romancistas insistam no mordomo.
Parece tudo em seu lugar, mas provavelmente não está. Sempre existe algo guardado enquanto deveria estar solto. Algo marcado, empacotado, e que parece que nunca vai se soltar, mas um dia. Sentimentos devem e podem ser mantidos a rédia curta, mas nunca outrém. Abro as caixas, organizo novamente e agora parece que tudo se encaixa. Mas ai não terá mais graça. Preciso da inquietação de saber que algo pode ser melhorado, independente do quão organizado possa parecer. Prefiro a inércia caótica de pilhas e pilhas de coisas que algumas pessoas dizem poder sobreviver sem. Hippies, nunca confie neles. Buscam apenas uma desculpa perfeita para a total falta de tarefas. Jamais espere algo de ninguém, nem de si mesmo. Surpreenda-se. Coloque em caixas, sabendo que mais cedo ou mais tarde irá tirar de lá, e sabendo também que caixas podem ser perdidas durante a mudança. … o risco que se corre, e desta vez, prefiro ir com os vidros fechados.
Pausa pro cigarro, pro café, e para que outros pensamentos tomem posição em uma mente ativa, mas cansada. Fim de ano, fim de ciclo, fim de tudo ao mesmo tempo em que se inicia outra jornada, outra busca que não começa pelo click em “estou com sorte”. Mudar em sagitário dá sorte, ou fazemos a nossa sorte? Tive um breve dejavu enquanto observava um cômodo vazio. A garrafa de água na mão já é um sinal de mudança. O cheiro da fumaça não, já me incomoda. Não entendo ainda como posso, mas entre um trago e outro, volto a formalizar o desejo de parar. De empacotar por hoje. Mas não posso. Essa última pausa na sentença foi intencional, como alguns pequenos erros ortográficos conscientes durante o testo, abrindo espaço para a ambiguidade. Considere a leitura dessa frase como ver o dvd com comentário do diretor onde pequenas mensagens nas entrelinhas são reveladas, embora como alguns diretores penso ser desprezível explicar semânticas utilizadas, mas como não sou considerado em academia alguma como um Letrado, tal parentese se faz necessário. Bem como explicar que nem todos os erros ortográficos são propositais, acho que isso faz jus.
Com a pausa, percebo que não é só em encaixotar que parei. Parei para pensar em não colocar mais o carro na frente dos bois, em seguir vocações, em descobrir e redescobir talentos que não devo mais encaixotar, sufocar ou procastinar. A urgência do som, a vontade de ser um prodígio já não são mais verdades, uma vez que hoje mesmo me peguei defendendo um prodígio de que não gosto, Mallu Magalhães. Culpei toda a pressão em cima do talento bruto e critiquei o fato desse talento se desperdiçar pela necessidade de se estar maduro antes mesmo de desabrochar. Demagogo sou. Busco as coisas cedo, anseio fazer algo melhor que Magnólia antes dos vinte oito anos como tinha Paul Thomas Anderson. Não preciso, não quero e não posso. Respirar. Pensar e encontrar saídas para que tudo o que eu nem sei que quero, posso ou faço ainda, e percebo que nada é por acaso quando existe a possibilidade de um dia se realizar em um destino ainda incerto, mas agora independente. Eu lembro do discurso do Steve Jobs. … só não mentir para eu mesmo que até consigo reinventar a roda. No começo este texto até pareceu falar de amor, não? Título usurpado, clichê e egocentrico de um amor próprio talvez? Não.
É sempre culpa de uma mulher, ou dinheiro… em/graçado?
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