colors I can’ t describe.


encaixotando Steve Bennet
Dezembro 10, 2008, 11:14 am
Arquivado em: contos, maluquices

Engraçado. Não é a primeira, nem a última vez que isso vai acontecer. Mas desta vez me dei conta. Tudo depende dos pequenos detalhes, das pequenas coisas que esquecemos e das grandes que só lembramos quando encontramos. Um mar de clichês que aqui se apresentam em caracteres.

É, vai ser diferente, eu penso. O tempo passa, as coisas mudam, mas quando me pego em m„os com objetos que ganhei a mais de vinte anos, percebo que velhos costumes sã válidos. Escrever é um deles. É como retomar algo que nunca se perde, sem comparar com bicicletas ou outros lugares comuns que julgamos nunca esquecer, como agradecer e perdoar.

De todas as mudanças, esta é a primeira sem rumo. E foi planejada para ser assim, caso contrário, seria como as outras. Se o destino não agradou, mude a rota. Nisso eu lembro de um filme que nunca assisti, e não vou roubar, vou homenagear no título, afinal, não entender orgulho é coisa do século XX. Hoje temos que ser tolerantes, da boca pra fora, e desconfiados cerebelo adentro. Isso enquanto não controlam nossos pulsos eletromagnéticos que interferem no celular, que não provoca e nunca provocará cancêr, uma vez que somos nós, humanos, nossa própria doença, e cura.

Bagunça, sujeira, nem percebo a música no repeat. Me recordo de ter escrito uma vez a luz de velas. Era para ser infantil. Agora não sei mais, não me preocupo mais com resultados e sim com intenções, e por mais que o inferno esteja repleto das boas, não existe negativismo sem justificativa, nem levanto o vidro pois nada de valor está fora da caixa, craniana. Espero apenas as palavras se juntarem e no fundo se entenderem, uma espécie de “kerning semiótico” que nem eu entendo, nem preciso, pois sei o que significou todo o montante de coisas que acumulei durante esses anos, e me lembro até de coisas e pessoas desfeitas. Máscaras que ainda guardo em algum lugar, talvez junto dos poucos brinquedos.

Ai me pego em coisas que sei que deveria ter jogado fora a muito tempo. Alguns livros que não li, esses não guardarei, é como sempre. Esperamos o momento. Por isso admiro quem começaa a refeição pela sobremesa, ao mesmo tempo que respeito quem come o ovo cru. Também não gosto das coisas indispensáveis de que não preciso mas guardo, digamos que por motivos burocráticos. Essa coisa de ser inocente até que se prove o contrário só existe nos filmes, já me ensinou a vida.

E por falar em filmes, guardei vários deles. Sob livros agora estão. Não lembrava mais quantos livros fui capaz de acumular, mesmo tendo usufruido muito de uma certa biblioteca cuja atendente era atraente o suficiente para eu tentar impressioná-la lendo Rainer Maria Wilke ou Saramago. Sara o que mesmo, ela disse certa vez. Acho que foi ai que passei a investir, em livros não e não na moça, e embora todos tenham sido absorvidos algum dia, posso querer repetir a dose, ou emprestar, ou presentear. Foi mais fácil com os cds, devidamente convertidos em mp3, o que facilitou muito minha conversão para uma vida portátil. Computador, dvd, mp3 player, era tudo transportável no pequeno automóvel. Vendi tudo quando precisava de dinheiro. Não há mais desculpas para não recomprar, além de esperar a mudança. Mas os livros, ah os volumosos. Eu posso recitar um trecho de uma genealogia que moral nenhuma explica, mas ainda guardo o tomo, que diz primeira edição. Está na caixa que parece valer a entrada de uma moradia em algum sebo, mas que na verdade mal pagaria o meu valor, R$5,40. Isso eu já expliquei anteriormente.

Faltam caixas. Nesta hora percebo que qualquer vida nunca vai ser portátil, nem estática, e muito menos, vazia. Sempre faltarão caixas, por mais que tudo possa um dia ser digitalizado, até nós mesmos. Toda a estética da coisa se distorce uma vez que na história exista uma mulher, ou dinheiro. … sempre culpa deles, separados ou não, embora romancistas insistam no mordomo.

Parece tudo em seu lugar, mas provavelmente não está. Sempre existe algo guardado enquanto deveria estar solto. Algo marcado, empacotado, e que parece que nunca vai se soltar, mas um dia. Sentimentos devem e podem ser mantidos a rédia curta, mas nunca outrém. Abro as caixas, organizo novamente e agora parece que tudo se encaixa. Mas ai não terá mais graça. Preciso da inquietação de saber que algo pode ser melhorado, independente do quão organizado possa parecer. Prefiro a inércia caótica de pilhas e pilhas de coisas que algumas pessoas dizem poder sobreviver sem. Hippies, nunca confie neles. Buscam apenas uma desculpa perfeita para a total falta de tarefas. Jamais espere algo de ninguém, nem de si mesmo. Surpreenda-se. Coloque em caixas, sabendo que mais cedo ou mais tarde irá tirar de lá, e sabendo também que caixas podem ser perdidas durante a mudança. … o risco que se corre, e desta vez, prefiro ir com os vidros fechados.

Pausa pro cigarro, pro café, e para que outros pensamentos tomem posição em uma mente ativa, mas cansada. Fim de ano, fim de ciclo, fim de tudo ao mesmo tempo em que se inicia outra jornada, outra busca que não começa pelo click em “estou com sorte”. Mudar em sagitário dá sorte, ou fazemos a nossa sorte? Tive um breve dejavu enquanto observava um cômodo vazio. A garrafa de água na mão já é um sinal de mudança. O cheiro da fumaça não, já me incomoda. Não entendo ainda como posso, mas entre um trago e outro, volto a formalizar o desejo de parar. De empacotar por hoje. Mas não posso. Essa última pausa na sentença foi intencional, como alguns pequenos erros ortográficos conscientes durante o testo, abrindo espaço para a ambiguidade. Considere a leitura dessa frase como ver o dvd com comentário do diretor onde pequenas mensagens nas entrelinhas são reveladas, embora como alguns diretores penso ser desprezível explicar semânticas utilizadas, mas como não sou considerado em academia alguma como um Letrado, tal parentese se faz necessário. Bem como explicar que nem todos os erros ortográficos são propositais, acho que isso faz jus.

Com a pausa, percebo que não é só em encaixotar que parei. Parei para pensar em não colocar mais o carro na frente dos bois, em seguir vocações, em descobrir e redescobir talentos que não devo mais encaixotar, sufocar ou procastinar. A urgência do som, a vontade de ser um prodígio já não são mais verdades, uma vez que hoje mesmo me peguei defendendo um prodígio de que não gosto, Mallu Magalhães. Culpei toda a pressão em cima do talento bruto e critiquei o fato desse talento se desperdiçar pela necessidade de se estar maduro antes mesmo de desabrochar. Demagogo sou. Busco as coisas cedo, anseio fazer algo melhor que Magnólia antes dos vinte oito anos como tinha Paul Thomas Anderson. Não preciso, não quero e não posso. Respirar. Pensar e encontrar saídas para que tudo o que eu nem sei que quero, posso ou faço ainda, e percebo que nada é por acaso quando existe a possibilidade de um dia se realizar em um destino ainda incerto, mas agora independente. Eu lembro do discurso do Steve Jobs. … só não mentir para eu mesmo que até consigo reinventar a roda. No começo este texto até pareceu falar de amor, não? Título usurpado, clichê e egocentrico de um amor próprio talvez? Não.

É sempre culpa de uma mulher, ou dinheiro… em/graçado?



A índia alemã
Novembro 27, 2007, 11:42 pm
Arquivado em: art, contos, maluquices

Motivado pelo post sobre o Buk, resolvi deixar aqui um conto que escrevi em 2005, chamado a índia alemã. É ficção (tirando o casal brigando no começo e a parte da Juliette Binoche, hehe), meio auto-biográfico, meio wannabe e meio muzzarela. Mas é sincero. Foi o que me disseram. Segueno post abaixo.



A índia alemã
Novembro 27, 2007, 11:37 pm
Arquivado em: contos

– Mas eu não quero esta vida…
- Nem eu. Mas a sua mulher é louca…
Impressionante como ninguém quer a vida que leva. E foi só ao observar este feio casal de uns quarenta ou cinquenta anos, ambos de aliança, no meio da rua, discutindo sobre seu aparente caso, que eu percebi como eu sempre quis a vida que levo, sem dinheiro, sem mulher e sem sonhos. Nunca quis ser outra pessoa, talvez alguns personagens, mas ninguém que eu tenha conhecido pessoalmente. Posso invejar as relações, as posses e a aparência alheia, mas nunca quis ser eles. Conscientemente, também nunca quis ser eu, mas o fato é que eu sou, e não tenho como fugir disso.
O ônibus chegou logo, e entrei, passei a catraca e logo sentei, ainda pensando nisso. De alguma forma, eu agora aceito o que sou hoje. E mesmo que eu não saiba direito o que é ser alguém, eu vou levando. Por algum motivo, me deu uma vontade incrível de chorar.
Foi quando em uma parada na frente de um cemitério, entrou uma moreninha sorrindo. Por reflexo, sorri também. Dava para ver em seu sorriso que ela também é uma fodida de grana, mas ainda assim sorria. Certeza que ela deve ter sonhos, ou pelo menos um macho em casa.

De qualquer forma, meu pensamento foi interrompido por um vendedor de flanelas. Foi a primeira vez que um desses vendedores que poderiam estar roubando, mas estão trabalhando, me ofertaram algo que não provocasse cáries. Procurei uma moeda no fundo do bolso para adquirir tal pechincha, e quando finalmente arranquei ela em um só golpe, todas as outras moedas escorreram para o chão. Constrangedor? Um pouco. Comecei a juntá-las, quando ela passa pela catraca e se senta no banco imediatamente atrás ao meu, mas do outro lado. Pele morena, não de sol, aproximadamente um metro e setenta e cinco
centímetros, cabelos loiros e lisos. Se eu não estivesse bem acordado, juraria que era uma índia alemã. Mas eu estou no Brasil, e tal utopia genética é totalmente plausível.
- Estas flanelas são de primeira qualidade, muito úteis para limpar os óculos dos senhores…
Volto a minha mente, e tudo bem, não é a primeira mulher desconhecida que eu olho e penso que daria filhos a ela, e no momento seguinte, já imagino sua bunda empinada no tanque. Não é a primeira vez que não sei o que fazer, o que pensar, que perco a noção da hora, que tudo o que consigo pensar em dizer é queria ter algo a dizer. Certeza que não foi a última vez que esquematizei todo o plano de como puxar papo, mas foi a primeira vez que quando olhei para trás, a mulher ainda estava lá. E ela olhou para mim.

- Vai querer a flanela, campeão?
Campeão? Eu só recebo todo o descaso do primeiro lugar no fracasso, mas mesmo assim, pego a flanela.
- Deus te abençoe.
Já me abençoou. Ela olhou para mim. Mas e agora? Tenho que disfarçar. Abro um livro. Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes. Ela pode se impressionar. Ou pode me achar um chato. Ela também está lendo. A insustentável leveza do ser, Milan Kundera.
Ótimo. Lembro do filme. Lembro nada. Só lembro de ter me masturbado muito na adolescência vendo a Juliette Binoche semi-nua. Malditos hormônios. Maldita situação. Estou transpirando. Óbvio. Após um dia de trabalho em São Paulo, onde a amplitude térmica é tão imprevisível quanto o trânsito, que no momento, está parado.
- Deve ser alguma manifestação – disse o cobrador.
Perfeito. Ainda tenho tempo de trocar algumas palavras com ela. Mas como? É sempre a mesma dúvida. Por que diabos as grandes cidades erguem fortalezas impenetráveis em torno de cada cidadão? E por que eu não aceito que quero a conhecer e ligo o foda-se para se hipótese dela me achar um xavequeiro barato? Queria um real por cada porquê…

Eu continuo tentando chamar a atenção sem ser notado. Coloco os fones no ouvido, volume no máximo. Talvez ela escute, e se identifique com a música…”se um dia nóis se gostasse…”. Lentamente ultrapassamos a manifestação. Ela não lê mais, olha pela janela. Seus olhos são cor de café, como os meus. Ela veste uma blusinha branca simples, jeans e uma sandália sem salto. Eu visto um terno de quinhentos reais surrado pelo tempo, e percebo que sentei em um chiclete, que é só a cereja no topo do sorvete, o que coroa minha imaturidade. Maldito transporte público. Eu sou usuário pois ainda não consegui comprar um carro. Nota-se pela minha vestimenta. Ela deve usar por questões ambientais.
Estes pensamentos estão insuportáveis. Não dá para viver assim para sempre. Algo precisa ser feito. Pelo menos um olá. Eu desço em poucos minutos, preciso de algo, mesmo que não tenhamos nada em comum, não posso deixar esta chance passar. Não mais uma…
Olho para trás. Ela se levantou e anda em minha direção. Apenas observo. Ela se dirige ao cobrador e pergunta:
- O próximo é o paraíso?
- Sim – responde o cobrador.
Ela anda em direção a porta dos fundos. A voz dela não é como eu imaginava. Ninguém é perfeito. Nem ela.

Me levanto, já que também desço no próximo. Ela é quase da minha altura, e a blusa cobre a bunda. Terei de imaginar como deve ser. Ando em direção a ela, ela levanta o braço, dá o sinal e me dirige um simpático sorriso. Percebo que ela deixa cair um pequeno pedaço de papel. É a minha chance: pegar e entregar para ela, ouvir um obrigado, responder um de nada, e puxar assunto. Sempre dá certo nos filmes.
Eu pego o papel, e leio: “nunca bata em portas que você jamais irá abrir”. O ônibus para, ela desce, eu desço. Ela sobe a rua. Eu, desço.